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Monday, 1 October 2012

O ETERNO SÉCULO DE HOBSBAWN


==> Sugiro a leitura acompanhada da trilha sonora do filme "Nós que aqui estamos, por vós esperamos", de Marcelo Masagão. Inclusive, acho que este filme, como um todo, é uma das expressões artísticas mais representativas da rebeldia moderna de Hobsbawm.

<http://www.youtube.com/watch?v=Lwl_CdjW3sw&feature=BFa&list=PL53DFB8F2EEA7BBC5>


O ETERNO SÉCULO DE HOBSBAWM


Morreu a primeira página de meu livro de história
velinha, já estragada,
mal se lia nela o passado...
entre seus traços esquecidos
brotavam
sozinhos,
qual ervas daninhas a consumirem o lar dos Buendia
sonhos de um velho
socialista
que agora lá está e,
por nós,
espera.

Um homem de seu tempo e
além dele,
um socialista
e além dele
um sonhador
e além dele
um realista
e além dele
nós.

de sonhos grandes
e sonhadores miudos
dos temas eternos
e dos maestros fugazes
das canções que confortam eras
e mudam mundos
e entoam lamentos
goela abaixo
dos poderosos
e dos violentos
e dos brutos
e dos homens

       -  dos vencedores
       -  dos senhores

Por ti os sinos dobram,
hoje e amanhã
e para sempre
sob o badalo dos que tem frio
e fome
e sede
de justiça
e um dia viraram as páginas da história
pelas Eras de Hobsbawm
e além

Choram por ti
as Pessoas Extraordinárias
num jazz silencioso
numa Marselhesa de Sans Cullotes
e sem direitos
e sem saida
e sem amores
e sem medalhas
e sem história
agora herdeiros de uma rebeldia,
que lá está e por nós
espera...


Estranho sentir-me assim tão afetado, pela perda de alguém que nunca conheci.
Pela perda de um mestre, do qual hoje discordo tanto: Razão pessimista, trajédia europeia, o absurdo do homem branco...
são críticas
severas
que hoje posso entoar
contra ele inclusive
porquê nas páginas doces daquele Breve Século XX
me perdi
pra nunca mais
me encontrar.


Friday, 12 August 2011

100 Anos de Solidão

E nessa bagunça de Aurelianos e Josés, acho que já nem sei quem sou...

Talvez,

na confusão das covas,

o destino venha a corrigir seu erro ao me dar a vida.


Até lá, o jeito que há é continuar vivendo

com a certeza de não ser o primeiro,

e a dor de não ser o último


bem no meio dessa estirpe marcada

a cem anos de solidão.


Monday, 8 August 2011

CAFÉ

Sempre odiei café,

nunca vi graça naquele copinho de pretume e cheiro forte

não me fazia sentido sentir o gosto do quente


mas hoje,

de repente,

o diabo do pretinho me chamou com força

e quando menos notei estava num shopping de madame,

ouvindo uma bossa que nunca foi o meu forte,

lendo pra esquecer das fraquezas,

e me afogando naquela negridão dos infernos,

...

que me lembrava o lar,

e descia quente esfriando um pouco do calor que me consumia.


Eu precisava daquele gole pra não me afogar pra sempre,

naquele gosto que odeio encontrei um prazer que achava ter perdido

por ai


Enquanto me sentia forte naquela poltrona,

sentia o cheiro de café moído,

e bebia

sem açúcar

aquele pretinho feio,

e não entendia

porque estava feliz

...

e o Poetinha

me dizia,

que pra fazer um samba com beleza,

era preciso um bocado de tristeza,

e que é melhor ser alegre que ser triste,

que a alegria é a melhor coisa que existe.


E justo hoje,

que eu queria tanto fazer um samba,

acabei aprontando poesia.

Friday, 5 August 2011

O Inferno de P.

Ele chegara reclamando do calor,

choveu.

Pela noite até bateu um vento gostoso.

Inútil

(…)

a chama que lhe consumia

não vinha de fora


Seria mais uma noite de peito quente

mais uma noite de sonhos queimados


(…)


quem dera não sonhasse tanto,

e a falta de sonhos o matasse

por inanição

- Aquele inferno que se apoderava dele


“Sem saber ao certo como, talvez por estar sonolento, perdeu-se em uma selva sombria”.


Suas pegadas não indicavam direção,

apenas faziam ler em seus olhos

que a esperança

dali em diante

não teria

vez.


“Deixai toda esperança, ó vós que entrais”.


O inferno dos outros ganhava espaço em seu ser

e atravessá-lo agora seria uma tarefa solitária,

para o deleite de sua Beatriz perversa

pantagruélica pelo gozo

de um Virgílio que guardava dentro de si,

(...)

fundo no limbo de suas carnes

quentes

o suficiente

para transformar o Cocite em termas.



Tuesday, 5 July 2011

VERDADES

A nobreza está no rabo

da saia

que sobe e desce

na noite.


O orgulho está no rosto

que apanha.


O amor

está no beijo e no ventre

que mudam de mão

em mão

ao sabor das carteiras

abertas

que se esvaziam

por gozo.


A majestade está no reino

da rua

e na coroa

de penas





a verdade

jaz

no sorriso

das putas



Monday, 4 July 2011

SONHOS

Às vezes em meus sonhos estou numa cadeira

de balanço.

Cabelos brancos e bebo algo quente,

não sinto muito o gosto do que desce por minha garganta,

mas as gotas que escorrem pelo canto da boca

me satisfazem.

Vejo vultos,

ouço ruídos

e volto minha cabeça para a TV

como se estivesse

assistindo.


Uma jovem me pergunta se estou bem,

tento lembrar seu nome,

por fim respondo

que sim.

Num esforço movo a cabeça

e espremo os músculos por um sorriso


A jovem finge que acredita

eu finjo que me importo,

ela volta para sua juventude

e eu me ponho a lembrar da minha


Lamento cada felicidade,

e percebo que cada sorriso sincero foi um nó mais firme em minha própria forca

Quase me movo de tanto terror,

mas então me faltam as forças

e me lembro de que estou velho

fraco

cansado

breve estarei

morto.


Me afundo uma vez mais na poltrona

e o mundo das lembranças volta a ser o dos vultos

e dos ruidos

e volto minha cabeça para a TV

como se estivesse

assistindo.


Ai então acordo assustado,

num gesto firme saio da cama

sinto os músculos se agitarem

e percebo

que tenho força

que sou jovem

que estou disposto

e que não tenho TV em casa

Saturday, 2 July 2011

O QUE ME RESTA?

Exilado em meu próprio país

de meus próprios amigos,

de meu passado gostoso, e do futuro anseado.

À margem e à sombra,

sigo ensurdecido pelo som de meus silêncio,

enfraquecido por minha resiliência,

assassinado pela vitalidade que penduro no rosto,

fraco de mais para desistir,

forte de mais para admitir...

hipócrita o suficiente para continuar,

bebendo as gotas de um mundo que poderia ser,

vivendo passagens de uma vida que poderia ter.

Louco

perdido

fodido.

Incoerente e descrente,

sigo enganando com um sorriso contente àqueles que não me olham nos olhos,

esta parte de mim

que não mente.


Talvez se houvesse maneira,

de olhar eu mesmo os espelhos de minha alma doente

eu pudesse fazer algo mais, além de seguir

em frente...

qual o louco que se perde no deserto,

vou vivendo o que me resta,

à procura do que imagino,

fantasiando o passado num futuro estraçalhado

gastando as energias que já não tenho em busca de um oasis que nunca existiu.


Viciado em adrenalina,

o coração já não sabe por que bater,

as pernas não sabem pra onde correr,

e a insanidade é a única conclusão racional que emerge em minha mente.

Uma efusão de contrários sugada por um buraco negro,

vazio de emoções e desejos,

faz de mim um personagem normal...

alguém que visto de longe simplesmente caminha pelos trilhos da vida,

de estação a estação...


… passa lo que passa, sea lo que sea...

próxima estación:

ESPERANZA!




Thursday, 30 June 2011

O PALCO DO ROSTO

- Não se assanhe.

Diziam os olhos.

- Não me castre.

Respondia o sorriso.

Brigavam sempre naquele rosto machucado pelos golpes de um e outro.


Um certo dia souberam os ouvidos que a briga havia então terminado,

após vinte e poucos anos de conflito,

vencia vitorioso o sorriso,

que se esparramava provocante

quase tocando seus inimigos derrotados.


Os olhos,

para sempre fechados,

morriam de vergonha.





O MONSTRO DO ARMÁRIO

O amor é como o monstro do armário,

quando somos crianças

acreditamos que ele esta lá.


No início

temos medo de abrir as portas

depois

é o orgulho que nos impede

e, quando menos se nota,

já estamos

velhos

acreditando em guerras,

mentiras,

traições e doenças

são tantos os demônios do homem

que, às vezes,

sentimos saudade dos monstros de nossa infância,

e quando abrimos enfim as portas do armário,

só temos roupas,

dívidas

e um whisky

escondido,

atrás das meias e cuecas.


Wednesday, 29 June 2011

O LEVANTE

E de repente a estrada se levanta

contra mim

minhas pegadas se juntam

para me esmagar

Sou confrontado por minha tirania

e minha vaidade

Penso em desistir,

mas sou apunhalado por meu orgulho

e permaneço sangrando sorrisos contra meu passado




Tuesday, 21 June 2011

SOBRE HERÓIS, LÁGRIMAS E MADRUGADAS


Às 3:30 da madrugada e,

se cada dia é um universo,

cada madrugada é uma constelação deles...

As luzes artificiais e o cinza não me deixam ver a lua, as estrelas, ou mesmo um pedaço ínfimo do céu,

me volto para a telinha do computador

esperando mais um pouco de nada

e, de surpresa,

me enchem os olhos as luzes de uma estrela morta.

Ayrton Sena não brilhou nos céus,

mas nos asfaltos...

ousou ter voz

opinião

e forçou sua vez num dos meios mais sujos de nossos tempos.

Fez literalmente poeira da máfia do GP 1,

falou o que não devia,

ganhou quando não convinha,

bateu quando não podia...

e morreu...


Pelo bem desse poema haveria de casar-se a morte com um par de impacto,

mas sendo Senna o morto,

talvez seja o caso de não poder,

em seu caso não houve tempo...

morreu solitário o herói de uma época,

morreu contrariado num carro que não queria

[nem rendia]

morreu numa curva em que simplesmente não morreria.


Fico pensando,

talvez tenha se passado da morte, estando em Ímola para ceifar Ratzemberger,

ter apenas se encantado

com o Sorriso, com os sonhos e com os domingos,

e ciumenta como é,

tenha decidido levar só para ela esses domingos que deviam ser eternos.

É duro,

no despertar de uma terça-feira,

descobrir que há 17 anos

Ímola matava meus domingos

transformando o “Tema da Vitória” em requiem.


No fim das contas

acho que vale

uma lágrima.



==> Link para assistir online a um filme bem recente sobre o Senna:

http://wwwstatic.megavideo.com/mv_player3.swf?image=http://img20.megavideo.com/94ee3d86065a4f3bc150bfa308427c9b.jpg&v=FPO6Y4RR

Sunday, 19 June 2011

AFAGO

Não basta o horror
do tapa,
Há ainda o expor
da cara
e no afagar
do rosto
o gosto
da vitória
de meu
conquistador,
digerida e
cagada
esfregada com o
afago
em minha
cara.

Friday, 17 June 2011

O FRIO


tocava uma mistura de punk-cigano

e outras merdas,

ao meu lado estavam os melhores,

amigos.

acima

meus pais.

o cheiro de vinho, whisky e cordialidade enganava,

sonhar não foi difícil,

acordar também não

duro foi descobrir que o brilho nos sorrisos,

de boa noite e bom dia

talvez

estivessem estado lá

na calada da noite

quando jogaram meu whisky

no lixo.

não são os 200 reais da garrafa,

talvez tenha sido a traição...

duro mesmo é receber o beijo

de Judas

sem ter nem mesmo um copo de whisky

para suportar,

o frio.